Histórias do bairro de Saracuruna
Resgatando a história do Brasil através do bairro de Saracuruna
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A história do Brasil é conhecida nas escolas, mas a importância de
algumas regiões, em particular, geralmente não são contadas nos livros
de história, e raramente chegam ao conhecimento da população local as
curiosidades sobre o surgimento e desenvolvimento de municípios e
bairros. Para resgatar casos interessantes, ressaltando a importância
de Duque de Caxias, a equipe do DC NEWS foi ouvir o ex-vereador Abdul
Haikal, que guarda na memória, informações importantes sobre
Saracuruna, região do 2° distrito do município onde ele mora.
Na época em que as terras eram distribuídas por Braças (antiga medida
de comprimento correspondente aos dois braços abertos, equivalente a
2,2 metros), Duque de Caxias, São João de Meriti, Nilópolis e Belford
Roxo pertenciam à Nova Iguaçu, compondo a maior região produtora de
laranja do país. Abdul Haikal lembra que, com o esgotamento das
riquezas, os colonizadores passaram a investir na agricultura, e essa
era uma região importante porque o escoamento da produção passava pelo
rio Meriti, e pelo porto do Pilar, até chegar às embarcações e ser
levada para a Europa.
"Nesse processo, Duque de Caxias enquanto distrito, parte de Iguaçu, e
depois como cidade teve papel importantíssimo por causa da sua posição
geográfica. O porto do Pilar deu uma importância estratégica à
região", explica Abdul.
A importância de Saracuruna, em particular, deve-se ao mesmo motivo. O
bairro é cortado por rios que faziam ligação com o rio Meriti e com a
Baia de Guanabara. A região fazia parte da Fazenda Nossa Senhora do
Rosário, do Barão de Iriri, que abrangia também Pantanal (Gramacho),
Pilar, Campos Elíseos, Primavera, e Imbariê, mas é difícil ter a
medida exata por causa das Braças. Depois a região passou a ser
chamada de Vila Urussaí, até ganhar o nome Saracuruna.
Haikal conta que onde ficam os sub-bairros Ana Clara e Cangulo havia
uma vegetação rasteira, habitat natural da ave Saracura, que tem
pernas longas e voo rasteiro. "Sendo que essa Saracura da região tinha
penas negras, daí o nome Saracuruna, porque a palavra una em
tupi-guarani significa negra", explica.
Em Ana Clara ainda há parte da história. As ruínas de uma das antigas
casas da época da Fazenda Nossa Senhora do Rosário estão lá, e também
de onde ficava a senzala - onde os negros eram acorrentados e
castigados. No local, também há um sítio arqueológico, por causa do
cemitério onde os negros eram enterrados.
Império
Ele nos conta que o surgimento do bairro aconteceu na época do
Império. Quando a Família Real ia para Petrópolis, as carruagens
seguiam pela atual avenida Presidente Kennedy, que foi a primeira
Rio-Petrópolis, e seguiam pela estrada Rio-Magé, para subirem a serra.
Abdul explica que por conta disso, as paradas da Corte aconteciam na
região. "Era uma viagem cansativa, por isso paravam para trocar
ferradura de cavalo, para o animal descansar. E em função dessa
parada, começou a surgiu uma pequena aglomeração, primeiro o ferreiro,
depois quem fazia um pequeno conserto".
Dessa forma, o local onde fica a Vila Urussaí passou a ter uma
atividade econômica e surgiu uma pequena comunidade, que trabalhava
para atender as necessidades dos cavalariços do Imperador. A
comunidade se consolidou.
Vila Urussaí, Cangulo e Saracuruna estão ligados ao Império. Haikal
diz que os três nomes são indígenas, e já as outras comunidades
surgiram num período pós-império, por isso receberam o nome em função
do loteamento. "As raízes da história de Saracuruna estão fincadas na
Vila Urussaí e no Cangulo", afirma.
Rede Ferroviária e Ferroviários
Com a implantação da rede ferroviária, pelo Barão de Mauá, o traçado
da rede estabeleceu a estação de Saracuruna. Com isso o fluxo do
desenvolvimento da região mudou da Vila Urussaí para o entorno da nova
estação de trem. "E é dessa forma que o transporte e as estações de
trem tem importância na vida de várias cidades e bairros. Todos os
bairros nasceram, cresceram e se desenvolveram em função das estações,
porque era muito mais fácil para o trabalhador ir à Central morando
perto da condução", diz Abdul. "Madureira, Pilar e Penha nasceram em
torno de suas estações. Com Saracuruna não foi diferente".
Na época do golpe militar, Abdul Haikal fazia parte de um grupo que
atuava tentando politizar estudantes. Segundo o ex-vereador, no
período em que João Goulart começou a ser pressionado por vários
sindicatos e entidades para promover as chamadas reformas de base -
que mexia com os interesses da elite -, começaram a se alinhar de um
lado os golpistas, e do lado de João Goulart uma série de movimentos
populares e segmentos da sociedade civil. Sendo que quando os
militares deram o golpe, pondo os tanques nas ruas, todos sumiram.
"Só ficaram, para resistir, os ferroviários. O ferroviário tinha uma
consciência política. E Saracuruna dentro do movimento ferroviário
cumpriu um papel importantíssimo porque aqui nós tínhamos o presidente
do Sindicato dos Ferroviários, Mário Barata, esse cara foi preso e
torturado pelo regime. Ele era de Saracuruna", conta.
Outro personagem citado por Abdul foi Adão Pereira Nunes, médico que
trabalhava na rede ferroviária federal e ativista político, que deu
nome ao Hospital Estadual de Saracuruna. De acordo com Abdul, a
história que os militantes mais antigos contam é que Adão Pereira
Nunes foi preso pelo exército em Raiz da Serra e quando estava sendo
transferido para o antigo Ministério da Guerra - onde é hoje o Comando
Militar do Leste, na Central - para ser interrogado.
Quando seguia de trem do quartel de Raiz da Serra para a Central, um
grupo de pessoas da rede ferroviária interceptou o trem, rendendo os
soldados e resgatando Adão Pereira Nunes. "Ele foi resgatado aqui e
dormiu aqui na casa do senhor Majest, uma figura muito respeitada em
Saracuruna", conta, lembrando que nós não cultuamos nossos heróis. "Os
grandes líderes ferroviários que contestavam o sistema frequentavam
aqui."
Abdul Haikal foi vereador de 1988 a 1992, criou a emenda que
transferiu a prefeitura de Duque de Caxias para o Jardim Primavera.
Foi subsecretário de Serviços Públicos e secretário de Transportes no
governo Washington Reis.